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MENSAGEM DA QUARESMA DO CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA

1. O Santo Padre Bento XVI dirigiu a toda a Igreja a sua Mensagem para esta Quaresma. Compete-me a mim concretizá-la para a Igreja de Lisboa, tendo em conta as suas características, dinamismos e fragilidades, anseios e dificuldades, no contexto das opções prioritárias da nossa acção pastoral.

O desafio global que cada Quaresma nos apresenta é assim enunciado pelo Santo Padre: “A Quaresma oferece-nos uma providencial ocasião para aprofundar o sentido e o valor da nossa identidade de cristãos, e estimula-nos a redescobrir a misericórdia de Deus, a fim de nos tornarmos, por nossa vez, mais misericordiosos para com os irmãos”.

Este desafio com que abre a sua Mensagem completa-o nas palavras com que a encerra: “Que este período se caracterize, portanto, por um esforço pessoal e comunitário de adesão a Cristo para sermos testemunhas do seu amor”.

Este é o objectivo único de toda a acção pastoral orientada para o crescimento da Igreja, Povo do Senhor: converter-nos a Jesus Cristo, segui-l’O como discípulos, abrir-nos ao amor que Ele nos comunica e que conduzirá toda a nossa vida. Esta é a função da “iniciação cristã”, que alarga o horizonte da inteligência e do coração para aderirmos mais radicalmente a Jesus Cristo, à vida que Ele nos oferece, aos caminhos de fidelidade que Ele nos sugere. A nossa Igreja diocesana tem de insistir neste caminho da “iniciação cristã” para todos os baptizados, através da catequese, da Palavra de Deus, da celebração dos sacramentos e sua preparação, de modo particular aqueles que, por serem basilares, a Igreja chama “sacramentos da iniciação cristã”: o Baptismo, a Confirmação, a Eucaristia.

Independentemente dos grupos em que estamos inseridos e dos processos em que participamos, a Quaresma pode ser, para cada cristão, em Igreja, um tempo de aprofundamento deste essencial cristão, para que a Igreja seja, cada vez mais, um Povo de discípulos de Jesus.

Esta caminhada pessoal é feita em Igreja e através dos meios que esta nos oferece. Mas pode e deve ter a verdade e a autenticidade da nossa vida pessoal. Quero indicar a todos, como atitudes fundamentais a aprofundar, a conversão e o cultivo da fé, da esperança e da caridade.

    A Conversão

2. A realidade do pecado tem vindo a ser relativizada na consciência dos cristãos e na cultura que nos envolve, o que diminui o sentido da necessidade e da urgência da conversão. Trata-se de uma ilusão perigosa: não vencer o pecado no nosso coração, impede verdadeiramente que o abramos para novos horizontes do sentido da vida, da felicidade, do amor e da verdade fundamental da nossa relação com Deus: glorificá-l’O e amá-l’O sobre todas as coisas, para podermos rezar com verdade a oração que o Senhor nos ensinou: “seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu”.

O pecado é manifestação da autonomia do homem em relação a Deus, autonomia da nossa vontade, da nossa liberdade, do discernimento que fazemos das diversas realidades que temos de enfrentar. Porque não vive a sua vida em relação com Deus, o homem decide-a como se Deus não tivesse nada a ver com ela. Podemos dizer que acreditamos em Deus, mas não estamos dispostos a viver com Ele em todos os momentos da nossa vida, escutando-O, contando com a força do Seu amor, louvando-O, procurando sintonizar a nossa vontade com a d’Ele.

É por isso que a conversão é, antes de mais, uma conversão a Deus e ao Seu Filho Jesus Cristo: “Convertei-vos ao Senhor vosso Deus”. Significa uma abertura do coração à presença e acção de Deus na nossa vida, que influencia tudo e marca um ritmo novo. É um caminho que supõe coragem e decisão, humildade e obediência ao Espírito, purificação da vontade e dos desejos, para que o principal desejo da nossa vida seja o desejo de Deus e do Seu amor.

Esta Quaresma é ocasião para, cada um de nós, avaliar a realidade do pecado na sua vida, e encetar o caminho da conversão, do regresso a Deus.

    A Fé

3. A fé é a atitude decisiva e constitutiva da existência cristã: quando ela falha ou enfraquece, tudo falha ou se relativiza. É uma atitude do coração, que envolve a inteligência e a vontade, que se abandona totalmente, na confiança, a Deus que Se nos manifestou. Foi por isso que, desde o início do cristianismo, homens e mulheres mudaram radicalmente a sua vida, deixaram tudo e seguiram Jesus.

No centro desta atitude está a presença irrecusável do Deus vivo, através do Seu Filho Jesus Cristo. Antes de ser um programa de vida, a fé é uma obediência de amor. “A Deus que Se nos revela é devida a obediência da fé”, diz o Concílio (cf. Dei Verbum, nº 5). A fé é a principal atitude que Deus nos pede e é, na sua génese, um acto de adoração de Deus.

Nesta Quaresma, devemos escutar o Senhor, e estar atentos aos meios pelos quais Ele normalmente se revela e nos manifesta a Sua vontade: a Palavra de Deus, a Liturgia, os acontecimentos da vida, sobretudo os relacionados com o sofrimento dos nossos irmãos.

Este ano está particularmente marcado por uma atenção particular à Palavra de Deus: um Sínodo sobre a Palavra, o Ano Paulino. As minhas Catequeses Quaresmais serão, este ano, sobre a Palavra de Deus. Lembro-vos aqui os temas, já anunciados:

    1º Domingo:                       O Verbo eterno e o silêncio de Deus

    2º Domingo:                        O Verbo eterno de Deus encarna na palavra humana: carisma profético

    3º Domingo:                       A Fé e a escuta da Palavra de Deus

    4º Domingo:                       A Escritura e a Igreja

    5º Domingo:                       A Palavra rezada

 Domingo de RamosEm Cristo o Logos eterno e a palavra profética                                             coincidem

Lembro que a Palavra da Escritura e a Palavra da Igreja são apenas meios, de certo modo sacramentais, que nos podem levar à escuta da Palavra do Deus vivo, o seu Verbo eterno. A falta da conversão do coração e a dispersão do momento podem impedir que a Palavra escutada ou proclamada não nos leve a escutar, na intimidade, a Palavra viva de Deus. Esta é sempre uma descoberta e uma surpresa, que nos mobiliza de novo para vivermos com Deus, em comunhão com Ele.

A Liturgia, a oração pessoal, a partilha fraterna, o empenho na evangelização, são circunstâncias que proporcionam uma nova escuta da Palavra de Deus. A fé é o quadro de todo este processo da escuta da Palavra de Deus. Como diz São Paulo, a salvação é um caminho que vai da fé à fé (cf. Rom. 1,16). Ela acompanhar-nos-á até ao limiar da eternidade, e inclui desde já a vivência da caridade e da esperança, atitudes constitutivas de um caminho de salvação. Como expressões da fé, elas são ainda “as primícias” de uma plenitude definitiva.

    A Caridade

4. Já vimos que a fé é, em si mesma, uma expressão da caridade enquanto acto de adoração e de louvor de Deus. Amar a Deus sobre todas as coisas e cada vez melhor, será exigência contínua da fé. Não há autêntica vida de fé sem adoração e louvor a Deus.

Mas a partir do amor de Deus, a fé abre-nos para o amor dos irmãos. Viver em Igreja é desafio de viver, com os irmãos, em comunhão de amor. Não se pode, com verdade, amar a Deus que não se vê, se não amarmos os irmãos que vemos e que Deus ama.

O Santo Padre convida-nos, nesta Quaresma, a concretizar este amor fraterno na “esmola” como partilha do que temos e somos. A “esmola” de quem pode partilhar, supõe a pobreza do coração para saber partilhar. Dar aos pobres só é expressão da caridade se tivermos “um coração de pobre”.

A nossa Diocese continuará a partilhar, através da “Renúncia Quaresmal”, com as Igrejas pobres que batem à nossa porta. Em documento anexo informamos a Diocese dos pedidos atendidos durante o ano de 2007. Outros vão chegando e começam a ser analisados.

Não os conhecemos, mas continuaremos a partilhar. O dar a quem não se conhece é expressão do silêncio que o Senhor aconselha a quem dá. Desses irmãos longínquos e desconhecidos, não estamos à espera de nada em troca. Mas isto não nos dispensa de estarmos atentos aos irmãos que vivem a nosso lado.

    A Esperança

5. O Santo Padre Bento XVI, na sua recente Encíclica “Spe Salvi”, mostrou-nos bem que a fé inclui a esperança, citando a Carta aos Hebreus: “A fé é a garantia dos bens que se esperam e a prova das realidades que não se vêem” (Heb. 11,1). A fé leva-nos a experimentar a comunhão com Deus e a perceber que só em Deus pode estar o nosso futuro. Aquilo que experimentamos é aquilo que esperamos em plenitude.

A fé purifica os nossos desejos, de vida, de felicidade, arranca-os ao horizonte fechado das coisas terrestres. Quando sentimos que o nosso futuro só pode estar na comunhão com Deus, alargamos o horizonte dos nossos desejos para além deste mundo, para a vida eterna.

A Quaresma é tempo de análise da nossa esperança. Não estará o nosso coração demasiadamente fixado nos bens deste mundo? Acreditamos e desejamos a vida eterna? Só assim poderemos celebrar a Páscoa como a festa da vida, o abrir definitivo do horizonte da verdadeira esperança. A esperança limitada aos horizontes deste mundo não responde aos mais profundos anseios do coração humano. Se esperamos apenas os bens deste mundo não valia a pena Cristo ressuscitar e de nos ressuscitar com Ele.

 
Lisboa, 2 de Fevereiro de 2008, Festa da Apresentação do Senhor.
 
JOSÉ, Cardeal-Patriarca


in www.patriarcado-lisboa.pt

DOMINGOS DA QUARESMA - LITURGIA

I Domingo da Quaresma - Ano A | 10 Fevereiro 2008

No início da nossa caminhada quaresmal, a Palavra de Deus convida-nos à “conversão” – isto é, a recolocar Deus no centro da nossa existência, a aceitar a comunhão com ele, a escutar as suas propostas, a concretizar no mundo – com fidelidade – os seus projectos.

A
primeira leitura - Leitura do Livro do Génesis
Gen 2, 7-9; 3, 1-7
afirma que Deus criou o homem para a felicidade e para a vida plena. Quando escutamos as propostas de Deus, conhecemos a vida e a felicidade; mas, sempre que prescindimos de Deus e nos fechamos em nós próprios, inventamos esquemas de egoísmo, de orgulho e de prepotência e construímos caminhos de sofrimento e de morte.

A
segunda leitura - Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Rom 5, 12-19
propõe-nos dois exemplos: Adão e Jesus. Adão representa o homem que escolhe ignorar as propostas de Deus e decidir, por si só, os caminhos da salvação e da vida plena; Jesus é o homem que escolhe viver na obediência às propostas de Deus e que vive na obediência aos projectos do Pai. O esquema de Adão gera egoísmo, sofrimento e morte; o esquema de Jesus gera vida plena e definitiva.

O Evangelho - Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Mt 4, 1-11
apresenta, de forma mais clara, o exemplo de Jesus. Ele recusou – de forma absoluta – uma vida vivida à margem de Deus e dos seus projectos. A Palavra de Deus garante que, na perspectiva cristã, uma vida que ignora os projectos do Pai e aposta em esquemas de realização pessoal é uma vida perdida e sem sentido; e que toda a tentação de ignorar Deus e as suas propostas é uma tentação diabólica e que o cristão deve, firmemente, rejeitar. (in Dehonianos)

II Domingo da Quaresma - Ano A | 17 Fevereiro 2008

No segundo Domingo da Quaresma, a Palavra de Deus define o caminho que o verdadeiro discípulo deve seguir: é o caminho da escuta atenta de Deus e dos seus projectos, da obediência total e radical aos planos do Pai.

O
Evangelho - Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Mt 17, 1-9
relata a transfiguração de Jesus. Recorrendo a elementos simbólicos do Antigo Testamento, o autor apresenta-nos uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que vai concretizar o seu projecto libertador em favor dos homens através do dom da vida. Aos discípulos, desanimados e assustados, Jesus diz: o caminho do dom da vida não conduz ao fracasso, mas à vida plena e definitiva. Segui-o, vós também.

Na
primeira leitura - Leitura do Livro do Génesis
Gen 12, 1-4a
apresenta-se a figura de Abraão. Abraão é o homem de fé, que vive numa constante escuta de Deus, que sabe ler os seus sinais, que aceita os apelos de Deus e que lhes responde com a obediência total e com a entrega confiada. Nesta perspectiva, ele é o modelo do crente que percebe o projecto de Deus e o segue de todo o coração.

Na segunda leitura - Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo a Timóteo
2 Tim 1, 8b-10
, há um apelo aos seguidores de Jesus, no sentido de que sejam, de forma verdadeira, empenhada e coerente, as testemunhas do projecto de Deus no mundo. Nada – muito menos o medo, o comodismo e a instalação – pode distrair o discípulo dessa responsabilidade. (in Dehonianos)

III Domingo da Quaresma - Ano A | 24 Fevereiro 2008

A Palavra de Deus que hoje nos é proposta afirma, essencialmente, que o nosso Deus está sempre presente ao longo da nossa caminhada pela história e que só Ele nos oferece um horizonte de vida eterna, de realização plena, de felicidade perfeita.

A primeira leitura Leitura do Livro do Êxodo
Ex 17, 3-7
mostra como Jahwéh acompanhou a caminhada dos hebreus pelo deserto do Sinai e como, nos momentos de crise, respondeu às necessidades do seu Povo. O quadro revela a pedagogia de Deus e dá-nos a chave para entender a lógica de Deus, manifestada em cada passo da história da salvação.

A segunda leitura Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Rom 5, 1-2.5-8
repete, noutros termos, o ensinamento da primeira: Deus acompanha o seu Povo em marcha pela história; e, apesar do pecado e da infidelidade, insiste em oferecer ao seu Povo – de forma gratuita e incondicional – a salvação.

O Evangelho Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Jo 4, 5-42
também não se afasta desta temática… Garante-nos que, através de Jesus, Deus oferece ao homem a felicidade (não a felicidade ilusória, parcial e falível, mas a vida eterna). Quem acolhe o dom de Deus e aceita Jesus como “o salvador do mundo” torna-se um Homem Novo, que vive do Espírito e que caminha ao encontro da vida plena e definitiva. (in Dehonianos)

IV Domingo da Quaresma - Ano A | 2 Março 2008

A liturgia de Domingo convida-nos à descoberta do Deus do amor, empenhado em conduzir-nos a uma vida de comunhão com ele. O Evangelho - Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 15, 1-3.11-32) apresenta-nos o Deus/Pai que ama de forma gratuita, com um amor fiel e eterno, apesar das escolhas erradas e da irresponsabilidade do filho rebelde. E esse amor lá está, sempre à espera, sem condições, para acolher e abraçar o filho que decide voltar. É um amor entendido na linha da misericórdia e não na linha da justiça dos homens.A primeira leitura - Leitura do Livro de Josué
(Jos 5, 9a.10-12), a propósito da circuncisão dos israelitas, convida-nos à conversão, princípio de vida nova na terra da felicidade, da liberdade e da paz. Essa vida nova do homem renovado, é um dom do Deus que nos ama e que nos convoca para a felicidade.

A segunda leitura
- Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios (2 Cor 5, 17-21) convida-nos a acolher a oferta de amor que Deus nos faz através de Jesus. Só reconciliados com Deus e com os irmãos podemos ser criaturas novas, em quem se manifesta o homem Novo. (in Dehonianos)

V Domingo da Quaresma - Ano A | 9 Março 2008

Neste 5º Domingo da Quaresma, a liturgia garante-nos que o desígnio de Deus é a comunicação de uma vida que ultrapassa definitivamente a vida biológica: é a vida definitiva que supera a morte.

Na
primeira leituraLeitura da Profecia de Ezequiel
Ez 37, 12-14
, Jahwéh oferece ao seu Povo exilado, desesperado e sem futuro (condenado à morte) uma vida nova. Essa vida vem pelo Espírito, que irá recriar o coração do Povo e inseri-lo numa dinâmica de obediência a Deus e de amor aos irmãos.

O
EvangelhoEvangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Jo 11, 1-45
garante-nos que Jesus veio realizar o desígnio de Deus e dar aos homens a vida definitiva. Ser “amigo” de Jesus e aderir à sua proposta (fazendo da vida uma entrega obediente ao Pai e um dom aos irmãos) é entrar na vida definitiva. Os crentes que vivem desse jeito experimentam a morte física; mas não estão mortos: vivem para sempre em Deus.

A
segunda leituraLeitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Rom 8, 8-11
lembra aos cristãos que, no dia do seu Baptismo, optaram por Cristo e pela vida nova que Ele veio oferecer. Convida-os, portanto, a ser coerentes com essa escolha, a fazerem as obras de Deus e a viverem “segundo o Espírito”. (in Dehonianos)


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